Não foi culpa sua

O que ninguém te conta sobre conviver com uma ferida ou cicatriz

Por Renata
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Deixa eu tirar um peso das suas costas, logo no começo, antes de qualquer outra coisa: a sua cicatriz não deu errado porque você comeu mal, porque pegou peso, porque "não se cuidou direito".

Cicatrização é fisiologia. É um processo individual, complexo, cheio de detalhes — e às vezes nem o médico consegue prever como o corpo de cada pessoa vai responder.

Eu sou fisioterapeuta e convivo todos os dias com pessoas que carregam feridas e cicatrizes. E posso te dizer com toda a honestidade: a parte física, a gente trata. Existe curativo, existe protocolo, existe acompanhamento. O que quase ninguém trata — e quase ninguém comenta — é o que acontece por dentro.

É sobre isso que eu quero conversar hoje. Sem produto, sem passo a passo. Só uma conversa que eu queria que alguém tivesse tido com você antes.

O cheiro que ninguém comenta

Ninguém te contou, mas o pior de ter uma ferida às vezes não é a dor.

É o cheiro.

É a vergonha de achar que as pessoas ao redor estão sentindo o odor do curativo. É recusar o convite para o almoço de família. É sentar na ponta da mesa, longe de todo mundo, "só por precaução". É abraçar de lado.

Quem convive com uma ferida que demora a fechar — como acontece com tanta gente que tem diabetes — conhece esse medo. Quem usa bolsa de colostomia conhece ainda mais. É um medo silencioso, que a pessoa não conta nem para o médico, porque parece bobagem perto da ferida em si.

Não é bobagem. É uma das partes mais pesadas de todo o processo.

E aqui vai uma verdade que talvez você precise ouvir: na maioria das vezes, o cheiro que você tem certeza que todo mundo está sentindo... só você sente. Nosso cérebro amplifica aquilo que nos envergonha. A ferida está no corpo, mas a vergonha mora na cabeça — e ela costuma gritar muito mais alto do que a realidade.

Isso não significa que o incômodo não exista. Significa que ele não define você. Você não é a sua ferida. Você não é o seu curativo. Você é uma pessoa passando por um processo — e processos terminam.

"Pra que você foi fazer isso?"

Ela fez a cirurgia porque queria se sentir bem. Planejou, economizou, esperou. E deu complicação.

E aí veio o pior. Não foi o curativo, não foi o retorno ao hospital. Foi o marido que não apoiou. Foi a amiga que falou pelas costas. Foi a pergunta que ninguém deveria ouvir num momento desses:

"Pra que você foi fazer isso?"

Se você já ouviu essa frase, eu quero que você saiba de uma coisa: essa pergunta diz muito mais sobre quem perguntou do que sobre você.

Cuidar de si não é vaidade que merece castigo. Fazer uma cirurgia — estética, reparadora, necessária, desejada — é uma decisão sua, sobre o seu corpo, feita com as informações que você tinha. Uma complicação depois não transforma essa decisão em erro. Não transforma você em culpada.

O que machuca nesses casos quase nunca é só a cicatriz. É descobrir que, na hora mais frágil, faltou colo. E que no lugar do colo veio julgamento.

Se é onde você está agora, deixa eu ficar do seu lado por um instante: você não precisava ter previsto o imprevisível. Ninguém precisa.

Não existe culpado

Essa é a parte que eu mais queria escrever.

Quando uma cicatrização complica — uma ferida que abre, um ponto que não segura, uma cicatriz que engrossa — a primeira coisa que a gente faz é procurar um culpado. E quase sempre o dedo aponta para dentro: foi algo que eu comi. Foi porque eu me mexi demais. Foi porque eu engordei.

Deixa eu te contar o que a fisiologia diz: a cicatrização acontece em fases, cada uma com sua função e seu tempo, e cada corpo atravessa esse caminho do seu jeito.

Dentro desse caminho, existem variáveis que ninguém controla. Genética. Resposta inflamatória individual. Condições de saúde que interferem em silêncio. O mesmo procedimento, feito da mesma forma, com o mesmo cuidado, pode evoluir diferente em duas pessoas.

E isso significa algo importante: complicações acontecem mesmo com o melhor cuidado médico e mesmo quando o paciente fez tudo certo. Não é falha sua. Não é falha de ninguém. É biologia — e a biologia, às vezes, simplesmente não avisa.

Eu sei que aceitar isso é difícil. Achar um culpado dá uma sensação de controle: se a culpa foi de alguma coisa, então da próxima vez dá pra evitar. Mas essa sensação cobra um preço alto demais quando o culpado escolhido é você.

O que importa não é achar culpado.
É seguir cuidando.

Seguir cuidando

Cuidar de uma ferida ou de uma cicatriz não é só trocar curativo. É também:

Voltar ao almoço de família, mesmo com o curativo.

Responder "estou me recuperando" sem pedir desculpas por isso.

Escolher quem merece saber dos detalhes — e quem não merece.

Perguntar tudo ao seu médico ou enfermeiro, inclusive as coisas que parecem bobagem.

Spoiler: o cheiro, a vergonha, o medo — nada disso é bobagem, e os bons profissionais sabem disso.

E, principalmente: falar com você mesma do jeito que você falaria com uma amiga que estivesse passando por isso. Porque eu duvido que você olharia para ela e diria "a culpa foi sua".

A sua cicatriz conta que você passou por alguma coisa.

Ela não conta que você errou.

Se esse texto tocou em algo que você está vivendo, fica por aqui com a gente. No Instagram da MS (@msskin.br) a gente conversa sobre cicatrização todos os dias — a parte da pele e a parte que ninguém vê.

Você não está sozinha nesse processo.

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Renata Fisioterapeuta e fundadora da MS Skin Healthcare

Renata Suzuki

Fisioterapeuta - Diretora comercial e técnica Ms Skin

Acredito que a melhor tecnologia só faz sentido quando transforma a vida de quem está do outro lado: o paciente.Minha trajetória na saúde começou na Universidade de São Paulo (USP), por meio do Departamento de Fisioterapia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), onde me formei fisioterapeuta. Em seguida, especializei-me em Terapia Intensiva, área em que tive o privilégio de atuar em alguns dos hospitais mais respeitados do Brasil, como o Hospital das Clínicas da FMUSP (HC-FMUSP), o HCor e o Hospital Sírio-Libanês.Foi dentro da UTI que aprendi uma das maiores lições da minha carreira: por trás de cada curativo, de cada cicatriz e de cada protocolo existe uma pessoa que deseja recuperar sua saúde, sua autonomia e sua autoestima.Ao longo da minha jornada, também dediquei parte da minha carreira ao trabalho voluntário na ABEUNI, onde tive a honra de atuar como Diretora Assistencial. Essa experiência fortaleceu ainda mais minha convicção de que conhecimento, cuidado e acolhimento caminham juntos.Mais tarde, decidi ampliar minha atuação e passei para a indústria da saúde, trabalhando como Especialista de Produtos e, posteriormente, na área Comercial. Essa vivência me permitiu enxergar um cenário ainda maior: profissionais altamente capacitados muitas vezes não tinham acesso às melhores tecnologias ou às informações necessárias para utilizá-las da forma mais eficiente.Foi dessa inquietação que nasceu a MS Skin.A MS Skin foi criada com o propósito de aproximar ciência, inovação e prática clínica, oferecendo soluções baseadas em evidências para o tratamento de feridas, prevenção e remodelação de cicatrizes. Mais do que distribuir produtos, buscamos compartilhar conhecimento, desenvolver protocolos, capacitar profissionais e contribuir para que cada paciente receba o melhor cuidado possível.Hoje, meu trabalho é conectar profissionais da saúde às tecnologias que realmente fazem diferença na prática clínica, sempre com um olhar técnico, ético e humano.Porque acredito que cuidar da pele é importante. Mas cuidar da recuperação, da confiança e da qualidade de vida das pessoas é o que realmente dá sentido a tudo o que fazemos.

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