Outubro Rosa além da prevenção: o medo do diagnóstico, a mastectomia e a cicatriz que fica
Todo mês de outubro, a gente vê muita gente falando de prevenção. Autoexame, mamografia, laço rosa. E isso é importante, de verdade.
Mas este texto não é sobre prevenção.
Este texto é para você que já ouviu a palavra. Que já saiu do consultório com o chão diferente debaixo dos pés. Que talvez esteja lendo isso de madrugada, sem conseguir dormir, pensando em tudo ao mesmo tempo: no tratamento, na cirurgia, no corpo, nos filhos.
Eu quero conversar com você. Sem pressa e sem frase pronta.
Como lidar com o diagnóstico de câncer de mama
Não existe jeito certo de receber essa notícia. Tem mulher que chora na hora. Tem mulher que fica estranhamente calma e só desaba dias depois. Tem mulher que vira uma máquina de resolver: exames, consultas, planilha. Tudo isso é normal.
O que eu quero que você saiba é: o medo não é fraqueza. Ele é a reação de quem tem muito a perder e muito a proteger.
Algumas coisas que costumam ajudar nas primeiras semanas:
- Uma coisa de cada vez. O tratamento é uma sequência de etapas. Tente olhar só para a próxima, não para o caminho inteiro.
- Leve alguém nas consultas. Com medo, a gente esquece metade do que ouve. Uma segunda pessoa (ou o gravador do celular, com autorização do médico) faz toda a diferença.
- Anote suas dúvidas antes. Nenhuma pergunta é boba. Nenhuma.
- Escolha onde você se informa. A internet tem de tudo. Sua equipe conhece o seu caso. Pergunte a ela primeiro.
- Peça apoio psicológico. Muitos serviços de oncologia têm psico-oncologia. Não é "para quem não aguenta". É para quem quer atravessar isso com mais chão.
O medo de faltar para os filhos
Se você tem filhos, principalmente pequenos, talvez esse seja o medo que mais aperta. Mais do que a cirurgia. Mais do que a quimio. O medo de não estar lá.
Eu sou mãe e sei o tamanho disso. Não vou dizer "não pense nisso", porque esse pensamento vem sozinho. O que dá para fazer é transformar parte desse medo em presença.
Como falar com os filhos sobre o câncer de mama:
- Fale a verdade, no tamanho da idade deles. Criança percebe que algo mudou. Quando ninguém explica, ela imagina, e o que ela imagina costuma ser pior.
- Dê nome. "A mamãe tem uma doença chamada câncer, e os médicos estão cuidando dela." Simples assim.
- Diga o que ela precisa ouvir: não foi culpa dela, não pega, e ela vai continuar sendo cuidada todos os dias.
- Avise sobre as mudanças antes que elas aconteçam: o curativo, o cansaço, o cabelo, os dias em que a mamãe vai precisar descansar.
- Deixe ela ajudar com coisas pequenas. Escolher um lenço, fazer um desenho para o dia da cirurgia. Criança que participa se sente menos assustada.
E se você não conseguir falar sozinha, tudo bem. A equipe de psicologia pode te ajudar a preparar essa conversa.
Os filhos não precisam de uma mãe que não sente medo. Precisam de uma mãe que continua presente, mesmo com medo.
Como fica a cicatriz da mastectomia
Agora eu quero falar de uma coisa que quase ninguém fala no Outubro Rosa: a cicatriz.
A cirurgia salva. Mas ela deixa uma marca. E essa marca é física e emocional ao mesmo tempo.
Dependendo da cirurgia, retirada de parte da mama (quadrantectomia) ou da mama inteira (mastectomia), com ou sem retirada de linfonodos da axila, com ou sem reconstrução, a cicatriz pode ser:
- Uma linha horizontal ou diagonal no lugar da mama;
- Uma cicatriz menor, acompanhando o contorno da mama;
- Cicatrizes também na axila, quando há retirada de linfonodos;
- Cicatrizes da reconstrução, quando ela é feita.
Algumas coisas que são esperadas e costumam assustar:
- Dormência ou sensação diferente na pele da região. A sensibilidade pode mudar e, em parte, voltar com o tempo, ou não. Vale conversar com sua equipe sobre o que esperar no seu caso.
- A cicatriz muda de cor e de textura ao longo dos meses. No começo ela fica mais vermelha e elevada. Com o tempo, tende a clarear e amaciar. Esse processo pode levar de 12 a 18 meses. Eu explico as fases em detalhe em As 4 fases da cicatrização.
- Repuxar ao levantar o braço. É comum, e é aqui que a fisioterapia entra (já já eu falo dela).
Cuidados com a cicatriz da mastectomia
Antes de tudo: cada etapa só começa com a liberação da sua equipe. O cuidado com a cicatriz de uma paciente oncológica precisa conversar com cirurgia, oncologia e, se houver, radioterapia.
Enquanto a ferida está fechando
Siga à risca as orientações de curativo, dreno e higiene que você recebeu. Não passe nada por conta própria na ferida ainda aberta. Febre, vermelhidão que espalha, secreção ou inchaço que aumenta: avise sua equipe.
Se você for fazer radioterapia
A pele da área tratada pode ficar vermelha, ressecada, escurecida ou sensível. Muitos serviços têm regras específicas sobre o que pode ou não ser passado na pele, e em que horário. Aqui, a regra é da equipe de radioterapia. Pergunte antes de usar qualquer creme, inclusive hidratante.
Depois da cicatriz fechada e liberada
É a fase em que dá para cuidar ativamente da marca:
- Hidratação diária, com produto indicado ou aprovado pela sua equipe.
- Silicone (em placa, fita ou gel) é uma das opções com mais respaldo para melhorar a aparência de cicatrizes elevadas e espessas. Converse com seu médico sobre o momento certo.
- Massagem na cicatriz, quando liberada, ajuda a soltar aderências e a pele a "deslizar" de novo.
- Proteção solar. Cicatriz recente exposta ao sol pode escurecer. Roupa, sombra e protetor.
- Observe se ela cresce além do corte, coça muito ou fica cada vez mais alta. Pode ser cicatriz hipertrófica ou queloide, e as duas têm tratamento. Explico a diferença em Queloide ou cicatriz hipertrófica?.
Fisioterapia: a parte que muita mulher descobre tarde
Como fisioterapeuta, eu preciso dizer: a fisioterapia oncológica faz muita diferença no pós-operatório de câncer de mama. Ela ajuda a recuperar o movimento do ombro, a soltar a cicatriz que repuxa e, quando houve retirada de linfonodos, a prevenir e cuidar do linfedema (o inchaço do braço). Pergunte ao seu médico se você tem indicação, de preferência cedo.
Quando a cicatriz mexe com a autoestima
Tem dia em que a cicatriz é só uma linha. E tem dia em que ela é tudo o que você enxerga.
Sentir luto pela mama que saiu não é vaidade. É luto mesmo. Pelo corpo de antes, pela imagem que você tinha de si, pela forma como você se via mulher. Esse sentimento merece espaço, e eu falo mais sobre essa marca que não aparece no espelho em O lado emocional de viver com uma ferida ou cicatriz.
Algumas coisas que você tem direito de saber:
- A reconstrução mamária é um direito. Pela Lei 12.802/2013, no SUS, ela deve ser feita no mesmo tempo da mastectomia quando houver condições técnicas, ou assim que a paciente estiver apta. A Lei 10.223/2001 garante a cobertura pelos planos de saúde.
- A reconstrução inclui a outra mama e a aréola. Desde a Lei 13.770/2018, tanto no SUS quanto nos planos de saúde, a simetrização da mama oposta e a reconstrução da aréola e do mamilo fazem parte da cirurgia reconstrutiva.
- Não querer reconstruir também é uma escolha legítima. Muitas mulheres escolhem não fazer, e vivem muito bem assim. A decisão é sua, junto com sua equipe.
- Existem recursos para depois: micropigmentação de aréola, tatuagem artística sobre a cicatriz, próteses externas e sutiãs específicos.
- No SUS, o tratamento deve começar em até 60 dias a partir do diagnóstico confirmado em laudo patológico, ou em prazo menor, se o caso exigir (Lei 12.732/2012). Se estiver demorando, procure a ouvidoria do serviço.
A cicatriz conta uma história. Mas ela não é a história inteira. Você é.
Perguntas frequentes
A cicatriz da mastectomia vai sumir?
Nenhuma cicatriz some por completo. Mas ela muda bastante ao longo de 12 a 18 meses: tende a clarear, ficar mais plana e mais macia. Os cuidados certos, no momento certo, ajudam nesse processo.
Posso passar creme na cicatriz durante a radioterapia?
Só com orientação da equipe de radioterapia. Alguns produtos podem interferir na pele durante o tratamento, e muitos serviços têm regras sobre o que usar e quando.
Quando posso começar a usar silicone na cicatriz da mastectomia?
Depois que a ferida estiver completamente fechada e com liberação do seu médico. Em quem fez radioterapia, o momento deve ser combinado com a equipe.
É normal a pele ficar dormente depois da mastectomia?
Sim, é comum haver alteração de sensibilidade na região, porque pequenos nervos da pele são afetados na cirurgia. Converse com sua equipe sobre o que esperar no seu caso.
Como contar para meu filho pequeno que estou com câncer?
Com verdade e linguagem simples: dar nome à doença, dizer que não é culpa dele, que não pega e que ele vai continuar sendo cuidado. Avisar sobre as mudanças antes que aconteçam. A psico-oncologia pode ajudar a preparar essa conversa.
A fisioterapia ajuda depois da cirurgia de câncer de mama?
Ajuda muito: na recuperação do movimento do ombro, na cicatriz que repuxa e na prevenção e cuidado do linfedema, quando houve retirada de linfonodos. Pergunte ao seu médico sobre a indicação.
Se este texto chegou até você na hora certa, guarda ele. E se você conhece alguém que está passando por isso, manda para ela. Às vezes, o que mais ajuda não é uma solução. É se sentir vista.
Outubro é rosa. Mas o cuidado continua em novembro, em dezembro, e por todo o tempo que você precisar.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação da sua equipe médica.
Vamos caminhar juntas no cuidado?
Você é profissional de saúde e acompanha mulheres no pós-operatório de câncer de mama? Fale com a gente. Queremos caminhar junto com você no cuidado da pele e da cicatriz das suas pacientes.
FALE COM A MS SKIN